Tatuagem: uma obra libertária

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Houldine Nascimento

O filme pernambucano Tatuagem, de Hilton Lacerda, é uma das produções mais premiadas do ano. O longa-metragem também tem sido muito elogiado pela coragem ao retratar um romance entre um agitador cultural e um soldado em plena ditadura militar, na década de 1970. Este ano, o público recifense tem mais uma boa oportunidade de assistir ao filme no Cinema São Luiz, onde está em cartaz desde o último dia 6.

Ambientado entre a capital pernambucana e uma cidade do interior, de início, o longa acompanha em paralelo a trajetória do soldado Fininha (a revelação Jesuíta Barbosa) e o artista Clécio (papel de Irandhir Santos), líder da irreverente trupe Chão de Estrelas e que não esconde a sexualidade.

Observamos o leque de riquezas de personalidades presentes no grupo artístico, com destaque para Paulete (Rodrigo García), uma figura divertida e responsável pelos momentos mais descontraídos. Entre os personagens deste universo, também estão o filho de Clécio e a ex-mulher Deusa (Sylvia Prado), de quem é amigo. A câmera também dedica parte do tempo para mostrar a relação paternal e a preocupação dele com o filho.

Apesar da irreverência em determinados momentos, este é um trabalho sério e realizado com muita delicadeza. O regime militar dava sinais de esgotamento. Ainda assim, os tempos eram difíceis e o Chão de Estrelas procura transgredir a rígida ordem vigente. Enquanto isso, vemos o soldado se dividindo entre a pesada rotina do quartel, discriminado pelos colegas sem razão aparente, e na cidadezinha onde mora, com a família e a namorada.

Em seguida, a trama abre espaço para uma bela e intensa história de amor, com direito a uma longa tomada que mostra Clécio e Fininha transando. Tatuagem marca a estreia de Hilton Lacerda na direção de um longa-metragem ficcional. O cineasta ficou conhecido por dar vida aos roteiros de filmes importantes em Pernambuco, como O Baile Perfumado, marco da retomada do cinema local, e às obras dirigidas por Cláudio Assis, casos de Amarelo Manga e Baixio das Bestas.

Tatuagem foi o grande vencedor do Festival de Gramado em 2013, arrebatando os kikitos de filme, ator para Irandhir Santos, prêmio da crítica e trilha para Hélder Aragão, mais conhecido como DJ Dolores.

É justamente a música que contribui dando força. Além dos temas criados especialmente para o filme, Hélder se utiliza de canções clássicas do repertório brasileiro. Uma delas é “A noite do meu bem”, imortalizada na voz de Dolores Duran, que embala uma romântica cena em que o casal de protagonistas dança de rosto colado.

O longa ainda traz belas imagens em super-8, o que dá um tom daquele momento. Com a opção de compor alguns planos neste formato, o diretor aproveita para homenagear os grandes nomes do Ciclo do Super-8 no estado. E o personagem do professor Joubert (Sílvio Restiffe) traz muito do cineasta Jomard Muniz de Britto.

Mas, apesar de retratar uma época específica, o caráter do longa-metragem é atemporal graças à abordagem de Hilton. É um romance que se revela possível em qualquer lugar.

Claro que o êxito se deve, em especial, aos dois atores que estrelam o filme. Irandhir Santos se consolidou entre os mais importantes intérpretes do cinema nacional por encarnar personagens versáteis, como aconteceu em Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro, onde fazia um ativista dos direitos humanos, e em Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, no qual nunca aparece e cuja composição reside simplesmente no poder da voz.

A boa presença de Jesuíta Barbosa aqui rendeu convites para outras obras, a exemplo da minissérie Amores Roubados, da TV Globo. Tatuagem também reforça a qualidade das produções audiovisuais feitas em Pernambuco. O filme se junta a sucessos recentes, como o bastante premiado no exterior O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e Febre do Rato, cujo roteiro também foi assinado por Hilton Lacerda.

O Chão de Estrelas se inspira num grupo teatral que realmente existiu à época: o Vivencial Diversiones, em Olinda, célebre pelo desbunde que propunha nas peças. São raras as produções brasileiras que tratam com sobriedade a questão homossexual. Contudo, Tatuagem também é um filme político e acima de tudo uma obra libertária.

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